segunda-feira, 10 de setembro de 2007

Saudosa Vanguarda

por Magno Neto

Ensaiei escrever um texto sobre uma grande paixão: a música. Era algo mais do que isto. Era uma pretensa dissertação sobre os movimentos musicais no Brasil, entre os anos 60 e 80, considerando a priori, que estamos num vácuo sem precedentes, exageros à parte. Como somos um país novo, cheguei a me apropriar do conceito de “idade mídia”, pegando carona na música do Cazuza, e comecei a divagar a partir da escuta acidental da canção “Baby”, interpretada com extremo vigor vocal por Gal Costa, em perfeita harmonia com o magistral arranjo do maestro Rogério Duprat -que Deus o tenha.

Tudo começou quando, sem perceber, sentei sobre o controle remoto que estava no sofá e então o cd player executou a faixa. Depois do leve susto, seguido da certeza cética que afastou a suspeita de manifestação mediúnica, ouvi o som, extasiado, e pensei: “que bela canção; cristalina, extemporânea, obra prima do Caetano Veloso”.

Tropicália, um movimento estético musical antropofágico. Lembro-me ainda criança, devia ter uns oito ou nove anos de idade, quando vi na rua o Caetano, com uma juba enorme e Gilberto Gil, ambos magrinhos e ripóides. Meu pai estudava filosofia e era meio engajado com essa galera; ele me fez breve relato do que eu ainda não compreendia sobre o contexto político, subversão, etc. Foi de fato um período fértil.

Depois da bossa-nova, dos grandes festivais e do despontar de todos os artistas que compõem a galeria dos ilustres da nossa música popular, surgiram outros movimentos. O pessoal de Minas Gerais, o Clube da Esquina, etc. Dizem até ser este o mais genuíno dos nossos movimentos musicais. Havia sem sombra de dúvida, uma corrente de irreverência e protesto nas canções do Chico Buarque, Ivan Lins, Gonzaguinha, Elis Regina, dentre outros, mesmo sem a deflagração de novos movimentos, mas fundamentalmente estimulados pela situação crítica do nosso país. O impressionante é que todos tinham muita personalidade, apesar de admitirem influências, de fora inclusive, o que é perfeitamente natural.

Pois bem, desisti. Era esse o caminho da minha dissertação. Um caminho tendencioso e cego. Caiu a ficha. Lembrei do Marcelo Nova numa entrevista dizendo que “esse papo de que no meu tempo era melhor é coisa de quem não está de bem com a vida”. Sorri. Fazíamos muitas críticas àquela época sim e tínhamos tanta coisa ruim.

Mudei o rumo da prosa. Voltei ao mundo real e soteropolitano. Este é o grande laboratório. E os universitários? Outro dia entrei no diretório acadêmico de uma dessas faculdades. Era um “evento cultural”, uma homenagem ao dia do estudante. E o fundo musical qual era? Pagode - aquele da pior qualidade. Cadê o protesto? Devem estar satisfeitos com a política do nosso país.

Woodstock? Qual nada, Wet’n Wild. No último final de semana peguei um enorme engarrafamento na Av. Paralela. Anunciavam 24 horas de shows com diversas bandas. Todas muito “parecidinhas”, com vozes nasaladas dando ordens para “a galera” levantar as mãos e balançar as “bundinhas”.

A padronização vocal é o que mais me chama a atenção. Fulana, que canta igual a beltrana, que parece demais com sicrana. E tome-se isso como um elogio. O estilo é um só: Gospel, gospel americano! Axé gospel, gospel pop-rock, gospel!

“O novo sempre vem” e tem coisa boa pintando por aqui. Vanessa da Mata, por exemplo, dias 15 e 16 próximos, no TCA. Será que o repertório inclui “Baby”? Espero que não, ou haverá muito mais semelhança do que mera coincidência.