terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Forte de Santo Antônio Além do Carmo - Memória do Lugar

por Malu

Circunstancias profissionais levaram-me a repetir um trajeto que há muitos anos tinha feito em situação inusitada e desconfortável , embora muito freqüente á época.

Anos setenta, mais exatamente 1974, 13 de março ,Auditoria Militar em São Joaquim, encerra um julgamento que durou 14 horas e condenou à prisão 16 militantes do Partido Comunista Brasileiro (PCB).Anos duros, mas já com a abertura gradual do governo do general Ernesto Geisel

Ao deixa a auditoria fomos conduzidos ao Forte Santo Antonio,na época penitenciária masculina e feminina .Sombrio, escuro com guardas de presídio que á primeira vista e momento nos assustavam e atemorizavam.Ali, numa sala com grades mantida como cela improvisada passei uma noite inesperada no chão sem lençol que meu otimismo em acreditar que não seria condenada não me deixou trazer de casa, como fizeram meus companheiros de partido e agora de prisão.

No Forte Santo Antonio vivi 15 meses numa convivência pacifica e restrita com assassinos,(a), homicidas, traficantes e usuários de drogas sob o comando de um diretor que nos tratava com dignidade e respeito, coisa rara nos anos da ditadura.

Não foi dos piores momentos de minha vida , outro viveria, mas a prisão ao lhe isolar da convivência com a sociedade lhe devolve para dentro de vc, lhe incita á reflexão, sobre os fatos , os sentidos e as sensações que a situação lhe evoca.

Todo esse flashback passou ,como numa tela de cinema, ao entrar em 2007 no Forte Santo Antônio hoje recuperado na sua arquitetura original com a utilização de materiais modernos e arrojados que salienta a beleza do projeto e do cenário - o bucólico e calmo largo de Santo Antonio e a exuberante da Baia de Todos os Santos.

Voltar em circunstâncias tão distintas e com o espaço sendo utilizado por grupos e academias de capoeira me fez pensa que o tempo não para e o forte segue também a sua trajetória que merece ser inventariada para reconstruir uma memória que assegure o conhecimento da sua história para os que não viveram e nem eram nascidos na década de 70.

Presentemente transformado num equipamento cultural , sob a responsabilidade da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia /IPAC, o Forte de Santo Antonio é um equipamento que pode abrigar projetos de natureza social e cultural e espetáculos de música e artes cênicas possibilitando parcerias estratégicas com a iniciativa privada e organismos internacionais.

Vejo também como fundamental dar visibilidade aos registros existentes sobre a história do Forte,inclusive a mais recente,de abrigo para presos políticos, de modo a se ter uma real dimensão do que se passou neste espaço. Seria muito interessante, inclusive se dispor de depoimentos dos ex-presos políticos sobre o período e a permanência nas dependências do Forte tornando mais presente e vivo um passado que muitos teimam em deixar morrer.

De todo modo o Forte permanece hoje com suas antigas celas sendo utilizadas por academias de capoeira em que mestres com Nenel, Curió, João Pequeno, Moraes, dão aulas e jogam capoeira.

Foi uma grande alegria voltando ao Forte, perceber que um espaço antes de reclusão e exclusão limitado a conversas restritas e vigiadas e vistorias desconfortáveis e constrangedoras, constitui-se num lugar em que se aprende uma das maiores manifestações populares do Brasil , a capoeira, que permite numa simples roda, a escuta da musica, o movimento do corpo , o som do berimbau num espaço que não impõe limites e em que todos podem jogar, cantar e se incluírem.

Considerando que todo conhecimento é apenas memória, vai por esse caminho e pensamento de Platão a necessidade de guardar e manter a memória do lugar que conformou parte da nossa identidade e da nossa história.